Histórias dos nossos VWs - 14
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| "Se meu Fusca Falasse...Inspirada numa lição" Autora: Fá Fioretti História publicada no Blog http://devoradoradehistorias.blogspot.com |
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Ela estava eufórica. Era uma vitória. Ganhara sua liberdade de ir e vir. Andava no seu fusca branco, ano 68, semi-conservado, como se pilotasse um Porsche Carrera GT, eleito o carro do ano na época. Sentia o mundo a seus pés e se orgulhava de seu possante. Vivia tempos de bonança. Um aumento salarial possibilitara que colocasse o filho - que chegara em idade primária - em um bom colégio particular. Fazia questão de buscá-lo na porta da escola com o vidro aberto, cabelos ao vento. O rádio sempre sintonizado em uma rádio que só tocava MPB. Exibia o seu bom gosto musical assim como exibia sua caranga. Seu filho, sempre muito falante e alegre, portava-se cabisbaixo e amuado na saída da escola. Ela, apesar de entender o sentimento do filho - afinal, também já havia sido criança e seu pai tivera uma "Variant" laranja -, ficou consternada com a aflição e, pela primeira vez, duvidou ter sido uma boa idéia colocar o menino em uma escola particular. Quem já viu uma saída de colégio sabe o tumulto e a algazarra que se formam quando o sino toca. É um embarque e desembarque constante em carros, vans e ônibus. Mães aglomeradas tentando reconhecer seus rebentos dentre tantas cabecinhas uniformizadas. No meio dessa balbúrdia ela levanta os braços e com movimentos de chamamento se põe a cantar, elevando a voz acima da cacofonia "Vem neném, vem neném, vem neném, vem!" Algumas mães a olham com espanto e ela continua a cantoria, sempre o mesmo refrão, cada vez acrescido de mais um movimento de dança, como palmas e pulinhos, até que avista o filho e parte para o inevitável grand finale mãos nos joelhos e roboladinha. O menino a olha espantado e pergunta porque aquilo e ela simplesmente responde que há coisas mais embaraçosas que um carro velho. Ela continua a cantar e a dançar durante todo o caminho até o carro e, perplexo, o filho faz voto de silêncio. Por mais quatro dias a cena se repete, até que o menino pede que a mãe volte a pegá-lo na porta de escola, de Fusca, pois seus colegas de classe o indagaram sobre o estranho comportamento dela e ele lhes contou a história, fazendo seus amigos rirem e desejarem que suas próprias mães lhes aplicassem castigos tão engraçados assim. O mais importante foi que o garoto entendeu que aquele não se tratava de um castigo, mas que a mãe lhe dera uma lição, não apenas sobre materialismo, mas sobre a péssima tendência que temos a ver as coisas apenas pelo ângulo do que o mundo capitalista valoriza e nos esquecemos de pensar inocentemente como crianças, até mesmo quando ainda somos crianças. |



